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Tributos, coletâneas, compilações e afins

  • Foto do escritor: InFeto
    InFeto
  • 15 de jun.
  • 5 min de leitura

Nestas linhas, quero destacar a importância das coletâneas, tributos e afins. Afinal, quem consome cultura — seja em formato físico ou digital — e nunca se deixou envolver por uma coletânea ou tributo? Esse tipo de material vai além de uma simples homenagem: ele revela como outros artistas reinterpretam a obra dos homenageados, mostrando sua visão, enaltecendo qualidades e o impacto que essa experiência tem em suas vidas. Diferentemente de bandas covers, coletâneas, compilações e afins acrescentam peso e relevância às cenas culturais de determinados locais, e muitas vezes ultrapassam fronteiras, como demonstram os exemplos que vou resenhar a seguir. 


Força Macabra -  Tributo: é uma bela pedrada do underground, lançado no final de 2024, que conta uma história de amor “luso-desgraçada” da música extrema. Quem é o Força Macabra? Para entender o CD, é preciso lembrar quem é a banda homenageada. Força Macabra é um lendário grupo de Thrash/Crust/Grind/Punk/Desgraça, do cu da Finlândia, fundado no início dos anos 90. O detalhe surreal é que os caras cantam estritamente em português. A banda nasceu com o propósito de homenagear a era de ouro do Metal e do Punk/Hardcore brasileiro dos anos 80 e 90 (bandas como Ratos de Porão, Olho Seco, Armagedom, Sepultura da fase inicial, Cólera, etc.), daí a intimidade com a nossa língua. Até o seu nome é influência nossa: “Força Macabra” foi tirado de uma coletânea brasileira de 1988 que contava com a banda Skarnio, que participou com uma faixa chamada Força sinistra. Há forma melhor de se aprender uma língua que seja mandando o sistema ir se fuder?! Eu desconheço! Talvez, só fudendo mesmo… O conceito do álbum tributo nasceu em 2024, idealizado por Fofão — a mente pensante por trás da Besthoven (uma das bandas participantes) —, formando um compilado que reúne 20 bandas brasileiras dos mais variados estilos do Thrash/Crust/Grind/Punk/Desgraça. São elas: Armagedom, Kalmia, Dischord, Besthoven, Final Trágico, Retaliador, Skarnio, Sociofobia, Ecoria, Baga, Mundo no Kaos, Derriba Tus Muros, Cães de Terminal, Descrença, Svartfaglars Begravning, death After Disease, Corja, Nefarious D-Saster, Logorréia, DLM. O lançamento foi uma união de forças totalmente independente, envolvendo vários selos nacionais (Vertigem Discos, Cianeto Discos, Terceiro Mundo Chaos, Dejeto Sonoro, Freedum, Two Beers Or Not Two Beers) e saiu em formato físico caprichado (digifile acompanhado de pôster e entrevista exclusiva).

Enfim, a tracklist é um panorama pesado do som desgraçado. É um item de colecionador obrigatório para quem valoriza a conexão direta e histórica entre as nações capirotescas e antissistema!



Sangue Preto - Nossa Luta Contra o Racismo: sabe quando uma pedrada invade uma janela e ela está embrulhada em fanzine feito por cabeças pensantes, revoltadas (com extremas razões) e gritantes!? Apois, esse projeto trata-se de um documento sonoro lançado em 2020, focado na valorização da resistência da luta antirracista. Infelizmente, o abate à pele negra em nosso querido e desgraçado país continua a ser algo comum e “lícito”. O “livro sonoro” já começa a seduzir pela capa, que traz uma arte impactante, construída em alto contraste e que reúne dezenas de rostos de ícones históricos, líderes políticos, intelectuais, artistas e figuras fundamentais da luta antirracista e da cultura preta do cenário nacional. É possível notar a presença de nomes como Marielle Franco, Maria Felipa, Luiza Mahin, Conceição Evaristo, Maria Carolina de Jesus, Luiz Gama, Lélia Gonzalez, Milton Santos, entre outras referências de peso. E tudo isso referenciado no famoso quadro Operários, de Tarsila do Amaral, de 1933.

O projeto, assim como o anterior, é um vatapá de excelentes ingredientes independentes do cenário underground. A realização ficou por conta de um coletivo formado por artistas gráficos, músicos, fotógrafos e da parceria entre nomes como Laja Records, A Saga, Causting Records, Inside. A proposta é usar a arte e a música como ferramenta de resistência, denúncia e luta contra o racismo no Brasil. Bandas participantes: Derrota e convidados, Bah Lutz, Bertha Luiz, Ratas rabiosas, Mau Sangue, Alã Kumarra, Crexpo Desalmado, Sendo Fogo, Make it Stop, Hayz, Demônia, Klitores kaos, O Inimigo, Desobedeça, Vozes Incômodas, Cruento, Discurso de Pobre, Humano, Afoite, Antilhano, Time and Distance, Blackjaw, The Biggs, Old Rust, e N.T.E. Ter na estante e ouvir um material como esse é infinitamente mais instrutivo, mais energizante, mais nutritivo e necessário para os neurônios que quaisquer livros famosinhos que estejam nas principais gôndolas de livrarias de aeroporto, shoppings e em programinhas de primeira qualidade de merda que possuem apelo midiático e rasa importância acerca do tema. Ouça Música Extrema! Aprenda com Música Extrema!



Resistiremos: Um Tributo Cearense à Dorsal Atlântica: Lançado em 2022, é uma homenagem pesadíssima de 16 bandas da cena extrema do Ceará. Aqui, o regionalismo se faz presente e com muito bom gosto e necessidade! Uma das instituições do Thrash/Speed Metal brasileiro, a carioca Dorsal Atlântica (liderada por Carlos Lopes), nasceu de uma parceria entre os selos Vertigem Discos, Burn Records, Two Beers Or Not Two Beers, Off the Rails, a Associação Cultural Cearense do Rock e o próprio Carlos Lopes que, durante a participação de uma mesa de debate denominada Metal e Conservadorismo, no Forcaos 2021, em plena pandemia, ejaculou pensares fecundativos. Além de celebrar o legado político e lírico da Dorsal, o lançamento serviu como um ato de apoio e coletividade para fortalecer as bandas locais após o período crítico da pandemia.

A arte da capa é um espetáculo à parte, assinada pelo artista Alcides Burn, misturando a estética crua da música extrema com forte teor político e regional, com figuras que remetem ao cangaço, fardamentos, opressão e resistência, tudo coroado pelo imponente cenário nordestino. A audição percorre várias vertentes do som extremo — do Crossover e Hardcore ao Death e Thrash Metal — e na lista dos navegantes da “cordilheira submarina do caos” estão as bandas:  Obskure, Lixorganico (cujo vocalista é dono do selo Vertigem Discos), Betrayal, Leprous, SteelFox, Corja, Viollen, Structure Violence, Krenah, Thrunda, Darkside, Warbiff, Crashhill, Óraculo, Criohar e a fodaralhaça Siege Of Hate (S.O.H.) (se você não conhece isso, priorize na sua lista).

Mais uma daquelas obras de arte que é preciso ter na prateleira ou estampada na camisa.



Sombinário #1: lançado pelo coletivo Pragatecno, é uma verdadeira relíquia da cena de música eletrônica independente do Nordeste brasileiro! Antes de adentrarmos nas batidas propriamente ditas desta coletânea, precisamos falar e exaltar a Pragatecno, que surgiu no final dos anos 90 em Maceió (AL), com o objetivo pioneiro e fundamental de catalogar e difundir a cultura de música eletrônica underground na região Norte-Nordeste, focando em variadas vertentes. Eles organizavam festas, debates e, claro, lançamentos musicais.

O coletivo, mais tarde, tornou-se referência para estudos sobre a cultura DJ e música eletrônica no Brasil. A bandeira deles é de que: “Música eletrônica é uma expressão artística da Cibercultura. Arte experimental e contemporânea”. Existe um ebook chamado "PRAGATECNO ― uma outra cena da mesma", organizado por Adriana Prates Sacramento e Cláudio Manoel Duarte de Souza, lançado em 2015 pela DaMãeJoana Casa Editorial. O livro conta com entrevistas, ensaios, artigos jornalísticos, depoimentos e fotos, conectando música e tecnologia. Ele pode ser baixado no site que deixo abaixo.

O Sombinário #1 foi o primeiro CD duplo de música eletrônica lançado no Brasil pelo selo carioca Utter Records. O projeto funciona como um documento histórico sonoro, pois reúne faixas de diversos produtores e DJs que orbitavam a cena da época. Era uma forma de registrar e mostrar para o resto do Brasil (e do mundo) que o Nordeste estava produzindo música eletrônica de vanguarda e de muita qualidade. Ter uma cópia física desse CD hoje em dia é carregar um pedaço importante da história e da resistência da música eletrônica nordestina e independente! É um marco da música eletrônica brasileira do final dos  anos 90. A coletânea continua ativa e encontra-se atualmente em sua 6ª edição, sempre apresentando um panorama do que está acontecendo na cena eletrônica independente. Tudo isso pode ser acompanhado e pesquisado nos links abaixo.




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