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Planet Hemp - a fumaça que fixa memórias nos neurônios

  • Foto do escritor: InFeto
    InFeto
  • 5 de out. de 2025
  • 5 min de leitura
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Como tem se tornado praxe no meio artístico musical, mais uma banda que selou seu nome em gerações e atravessou décadas tocando o terror resolve sair do palco com todas as honras e forças. Estou falando da fábrica de fumaça e antimídia que a mídia teve que comprar chamada Planet Hemp. A banda, criada em 1993, e que teve o seu primeiro álbum, “Usuário”, em 1995, resolveu estender a última seda para a última “dichavação sonora” para celebrar uma vida de vitórias, perrengues e conquistas.


A banda saiu do underground não só por ter qualidade para isso, o que infelizmente não é condição essencial para que as milhares de bandas de qualidade extrema que continuam no underground sem ter — ou querer — uma oportunidade de limpar os pés no tapete da ante-sala do mainstream e adentrar. O Planet Hemp literalmente teve que ser digerido — em meio a ataques de gastura e azia — pela mídia, por conta do incômodo e barulho que causou devido à adesão dos adeptos à ideia central das músicas (legalização e descriminalização da maconha), associada a grotesca e normativa hipocrisia governamental e sistêmica que lucra-mata, mata-lucra a galera da esquadrilha da fumaça, enquanto os verdadeiros canalhas “‘vivem nas nuvens” com o dinheiro gerado pelo narcotráfico, tal, etc e tal.


O fato é que o Planet Hemp chegou ao topo do mundo com o seu “RapRocknrollPsicodeliaHardcoreRagga” e, em setembro de 2025, após terem sido:


“Usuários e Sagazes Homens Fumaça e,

mesmo com o alarde, terem feito sua Jardinagem

e a Colheita, afinal, Os Cães Ladram.

Mas a Caravana Não Pára”,


anunciaram a derradeira “última ponta”, a sua turnê de despedida, tendo como riscada de fósforo inicial — ops! eu quis dizer: o primeiro show da turnê — a famigerada terra do dendê: Salvador-BA. Esta terra que, como fã da banda desde o começo e segundo a própria banda, tem uma grande participação na biografia, com vários shows importantes para a consolidação da sua ascensão. Sua história em Salvador passa desde o underground até o mainstream, levando a banda a fazer shows em biroscas alternativas até grandes festivais. Aqui criaram raízes de pontas, cinzeiros e flores, mantendo um forte vínculo com a nossa cultura underground. Tanto que na véspera do último show a banda se fez presente em um dos redutos alternativos da cidade (o DiscodeliaPub), localizado no Rio Vermelho, que coincidiu com o julgamento e condenação do déspota Jair Bolsonaro.


O show em Salvador foi massivamente anunciado e a Concha Acústica (eu não gosto de show lá, fico com medo de capotar nas escadas e ficar tetraplégico…) estava provavelmente com sua capacidade quase completa por uma variedade de pessoas: nação maconheira, coroas e idosos que certamente acompanham a banda desde o começo, fãs jovens que devem ter ido ao “primeiro-último” show da banda, famílias inteiras, gringos… enfim, todos em consonância e sintonia para queimar a “última ponta”, seja na seda ou nos recantos da mente.


O show foi apoteótico, sem exagero de fã. Foi desgraçadamente foda! (OK! isso foi jargão de fã!). A energia dos caras (estou arrepiado agora) foi algo extraordinário, daquelas coisas que só a Arte pode gerar e explicar. A banda, que contou com parte da formação original, tinha um cenário muito bem organizado com a porra de um sofá no meio do palco, para enfatizar que ali, aquele local — o palco, a estrada — é a casa deles. E ali, entre músicas, eles sentavam, queimavam um e iam se revezando, queimando as primeiras e últimas pontas e tocando um terror revolucionário que a mídia não pôde deixar de dar atenção. Havia também toda uma narrativa audiovisual preparada e exibida em três telões, que conferiu à apresentação um “Q” de Broadway, de festival de uma banda só. Essa parte audiovisual era uma espécie de livro digital que contava toda a história da banda de forma descronológica, mas apresentava todos os principais momentos da banda, com fotos e vídeos raros, textos incríveis, letras das músicas e os videoclipes originais, que eram exibidos enquanto as respectivas músicas eram executadas. Tudo isso foi um fator predominante para que os fãs como eu lacrimejassem e sentissem arrepios das pregas do cu até a nuca.


Meu medo de fã chato era que a banda com tantos anos de sucesso, de projetos paralelos e afins esquecesse as suas raízes hardcore, mas o medo foi aniquilado logo no primeiro set da banda, quando os desgraçados fizeram releituras de seus clássicos mais grudentos com um peso extra, e em seguida dispararam uma metralhadora com cartuchos dos hardcores do início da carreira, essenciais para qualquer fã. Cada acorde remetia a uma ponta queimada nos idos da década de 1990. Até as músicas mais lentas e populares ficaram lindas com a energia do público e as roupagens mais pesadas.


Durante todo o show e, especialmente no final, os caras exaltaram todos que passaram pela banda, ou que de alguma forma foram importantes na construção dessa trajetória. Citaram nomes do underground baiano como Inkoma e Lisergia, nomes dos festivais que passaram por aqui e foram se consagrando aos poucos. A Family Hemp foi exaltada com louvor: Kalunga, Cabeça, os ex-integrantes, parceiros como Black Alien, Sabotage, Chico Science, o inesquecível e primordial Skunk, além de vários outros (citaram até o nosso querido Nelson Rufino). Sem mágoas, sem egos. Toda essa nostalgia necessária soou como comemoração e não como tristeza, e foi pincelada por todo o show, tanto nas falas dos vocalistas quanto nos telões. Mas na hora que foi cantada “Samba Makossa”, foi pior que baculejo de PM. A emoção foi total, digna do ditado: “onde o filho chora e a mãe não vê”. Ao contrário de senhores da aristocracia que também fazem suas derradeiras turnês ou comemorações a álbuns clássicos e que sequer fazem menção aos antigos companheiros de bandas ou às pessoas que ajudaram a história a acontecer, o Planet Hemp fez questão de dizer: “Eu não cheguei aqui só, porra!”. Foi lindo, lindo demais ver aquela nostalgia travestida em roupas novas sem serem atuais demais para serem chatas.


O fato é que o Planet Hemp acendeu seu último “baseado sonoro” da melhor forma possível, com uma extrema entrega sonora, enérgica e audiovisual, e vai continuar queimando este baseado nos próximos shows até que, de fato, se atinja a “última ponta”, ou seja, o último show, que até então está marcado para dezembro, no Rio de Janeiro. Mas as cinzas espalhadas, o rastilho da fumaça cheirosa e as bitucas desse capítulo da nossa música jamais vão se apagar, pois foi tão bem bolado e contém uma erva de tanta qualidade que se em algum momento no futuro eles resolverem voltar, eu juro que os processo, pois não há como reproduzir a energia e memórias que eles causaram nesta turnê de saideira. Eu quero ter a memória desse show de Salvador que ocorreu em 13 de setembro de 2025 na velhice ou no Alzheimer que seja. Quero me erguer entre fraldas e cuidadoras e dizer “Puta que pariu! eu estive lá em setembro de 2025 e foi assim…”.

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