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Kubrusly - Ainda há música na sala de despedida

  • Foto do escritor: InFeto
    InFeto
  • 24 de set. de 2025
  • 3 min de leitura
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Maurício Kubrusly, jornalista de cultura, conhecido pelos brasileiros por seu carisma e capacidade de abordar com naturalidade e humor os mais diferentes assuntos e personagens pelas regiões por onde passou enquanto comandava o seu programa “Me leva, Brasil”, que permaneceu no ar por 17 anos e abrangeu praticamente todo o Brasil e o maior número possível de suas vertentes culturais. Além do programa na TV Globo, Kubrusly foi crítico musical e escreveu sobre os mais variados assuntos. Passou por jornais impressos, revistas e rádio, onde começou a sua carreira.


Ele foi diagnosticado com demência frontotemporal (DFT), a mesma que afastou o ator Bruce Willis das telas. A DFT é uma doença degenerativa que afeta as regiões frontais e temporais do cérebro, causando alterações na personalidade, no comportamento e na linguagem. No caso do Kubrusly, ele vem perdendo gradativamente suas lembranças e, também, a capacidade de ler e escrever. Não reconhece mais as pessoas, somente a esposa, a arquiteta Beatriz Goulart, com quem é casado há cerca de 20 anos, e que tem sido a sua maior âncora de amor, paciência e cuidado. Segundo a esposa, ele já não reconhece a sua própria história, e isso fica registrado no documentário “Kubrusly: mistério sempre há de pintar por aí”, que também é um ato de amor por parte da esposa, que diz ter tido a ideia e permitido a sua produção por não querer que a trajetória tão especial dele fosse esquecida e por muitos ainda se lembrarem dele e quererem saber por onde anda o emblemático jornalista que tanto nos animou e apresentou coisas.


O documentário, dirigido por Caio Cavechini e com roteiro de Evelyn Kuriki, acompanha o dia a dia de Kubrusly, desde sua rotina em casa, as coisas que ele ainda consegue e gosta de fazer, as consultas e exames, e o encontro com amigos de profissão, familiares e de vida, que tanto o estimam. Hoje, Kubrusly vive com a mulher, Beatriz Goulart, em uma comunidade à beira-mar no sul da Bahia. Todo o documentário é entrecortado por música, que foi a maior paixão cultural dele e ainda hoje é o elo que mantém a sua percepção e lógica nos seus dias. Durante o documentário é comum a sua expressão de paz ao ouvir algo selecionado por ele e pela esposa e suas observações quase infantes de quem descobre um mundo: “Olha só, que coisa linda!”, “Olha, que maravilha!”, “Olha, que bacana!”. O casal, que se conheceu em um site de relacionamento, chegou a ter mais de 10 mil CDs, e hoje ainda mantém mais de oito mil CDs e um IPOD que tem cerca de 16 mil músicas. E essa arte sustenta o fio da lucidez que resta ao repórter.


Ele já não reconhece as letras. A página aberta diante dos olhos é apenas um campo branco com manchas pretas que dançam sem sentido. Responde a alguns estímulos, a outros não. Se perde no olhar e se encontra na próxima canção, e arrisca até dançar. A casa onde ele vive é cheia de trilhas sonoras, seja ela oriunda de músicas, da natureza, do amor e dos cuidados e a do próprio silêncio. A despedida do Maurício Kubrusly não veio de uma vez. Ela veio em capítulos, faixas sonoras. E, curiosamente, cada trilha tem sua beleza. Há algo de sagrado em acompanhar alguém que parte devagar. É como assistir ao pôr do sol, escutar o fade out de uma música preferida.


Na sala dessa despedida, ainda há música. Ela toca nos gestos, nos abraços, nas risadas, nos cuidados. Toca no olhar da esposa, que segura sua mão como quem segura o tempo. Ele está indo. Mas ainda não foi, pois ainda há música na sala de despedida.


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