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O massacre das nozes pelo leão ou roteiro do Natal

  • Foto do escritor: InFeto
    InFeto
  • 24 de dez. de 2024
  • 2 min de leitura
Arcabouçado pelo espírito natalino
sinto-me, novamente, o velho e cansado
cavalo desse caboclo católico gastronômico
que nunca muda o cardápio em suas oferendas eclesiásticas.

A mãe nervosa com os últimos preparativos;
um esqueleto de vegetal plástico, fedendo
por conta do vinagre usado para retirar o mofo;
crianças felizes; adolescentes emburrados; adultos famintos
Todos “encaboclados” no terreiro do Nada feliz.

Ofereço ajuda para ser útil, mesmo
e para fugir da sedução do parapeito do terraço
Distribuo sorrisos, refaço laços, arrumo bandejas
gelo a cerveja, fotografo o presépio e as presepadas
A lareira vinda da TV ligada faz tudo ficar mais desgraçado
Eu rezo a Deus, Satan, Lemmy Kilmister, Kurt Cobain
Chuck Berry, São Nicolau, Papai Noel, a Puta que pariu
para que, no rádio, também ligado, não toque Simone.

O roteiro continua sem que nada seja mudado:
“Em que diabos se meteu o cravo?”
“Você comprou por quanto este queijo cuia?”
“Peru ou tender?” — me perguntam
“Suicídio!” — degluto com a farofa de passas e castanhas.

Sento-me num canto com uma lata de sequilhos entre as pernas
Longe, onde pisca-pisca algum possa me denunciar
Observo a cena da santa ceia dos cordeiros de Deus
dependurados nos ganchos mortuários do mostruário frigorífico
— morno, reluzente, afagável e pagão — do cristianismo.

Tenho nas mãos poemas selecionados para a ocasião.
Um de Myriam Fraga não me chama a atenção
mas... eu empaco nele... por que será?! Por não me dizer nada?!
Eu leio e releio e o entendo, apenas, como uma ilustração natalina
como a dos tecidos — de camas, panos de prato e toalhas de mesa
Mas, de repente, a luz branca do topo da árvore se acende
Alguns batem palmas, outros sorriem, uns nem ligam
Eu prendo a lata de sequilhos entre os joelhos
e observo novamente a cena da ceia, agora, mais iluminada
...e tudo está lá... absolutamente Tudo!
Idosos cochilando; o papa lavando pés; crianças sonolentas;
bêbados bebendo; gordos em busca do chá de boldo;
a anfitriã cansada; lixo retirado; ceia embalada; o ato consumado.

O leão do poema da Myriam Fraga surge
Adornado de luz negra, juba branca, laçarote e gorro vermelhos
Ele ruge um grotesco "How, how, how!"
Ergue sua pata descomunal e esmaga a todos nós
Nós: as nozes! Tão seguros dentro de nossas cascas
e participantes imprescindíveis das ilustrações natalinas.

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